[2001: A Space Odyssey, GB/EUA, 1968]
Ficção
148 min
1968 não foi um ano como outro qualquer. Da Primavera de Praga, passando pelos assassinatos de Martin Luther King e Robert Kennedy, às manifestações estudantis, incluindo aí o Maio de 68 em Paris, o Massacre de Tlateloco no México e as passeatas aqui no Brasil contra a Ditadura Militar prestes a instaurar o AI-5, além da Guerra do Vietnã e a ascensão da contracultura dos hippies e da libertação sexual feminina. Muita coisa aconteceu no ano mais complexo da história do século XX, que repercute até hoje em cada esquina onde haja um jovem e um cinquentão na eterna queda de braço de seus valores morais. Em meio a tudo isso, um filme foi lançado espelhando, talvez num nível inconsciente, todas as chacoalhadas e transformações pelas quais o indivíduo passou naqueles conturbados doze meses. Um ano antes de o homem pisar na lua e olhar de lá para cá, Stanley Kubrick jogou a isca e abocanhou um grande peixe: a Terra era azul. Mais do que uma obra profética, nesse e em vários outros sentidos, “2001: Uma Odisseia no Espaço” abriu caminhos perceptivos sobre a evolução humana e sobre como a ficção científica poderia ser objeto de reflexão da realidade. Kubrick não se conteve em fazer um grande filme diferente de tudo já visto no gênero até então. Precisou ir além disso. Muito além.
Agora, com a disponibilidade da obra em Blu-Ray, com altíssima definição de imagem e banda sonora, é uma excelente oportunidade de redescobrirmos toda a genialidade de Stanley Kubrick num dos grandes filmes de todos os tempos, revolucionário e perturbador em sua época, instigante e fascinante mesmo nos dias de hoje, com a perfeição de efeitos realistas e o modismo da tecnologia 3D. Antes de qualquer coisa, “2001” é um filme de ideias, de conceitos aparentemente abstratos, captados de forma próxima e realista pelas lentes da câmera a coreografar um verdadeiro balé ao som de música clássica. O espectador é testemunha ativa da construção de sentido em cima da sequência de imagens regida com um formalismo capaz de embasbacar Eisenstein, se o mesmo pudesse ver o espetáculo. Aqui, o maestro leva o espectador a uma viagem ao passado e ao futuro da civilização humana para mostrar o quanto muito ainda se desconhece em relação à própria natureza e a amplitude da mente, seja humana, artificial ou extraterrestre, sem nunca perder as sutilezas para as lacunas serem preenchidas por cada um. O teórico Hugo Münsterberg, um dos primeiros a escrever sobre cinema, mais especificamente acerca da receptividade ativa do público, certamente se debruçaria em minuciosos ensaios sobre a capacidade de Kubrick fazer o espectador preencher mentalmente o que está fora das imagens, mesmo estando lá.
É o que chamamos de elipses, simbologias de ação, espaço e tempo apenas sugeridas pela narrativa. A transformação do osso jogado pelo primata no ar, após este descobrir como matar animais e também semelhantes, numa estação espacial resume, num único corte, simplesmente toda a evolução civilizatória do homem. Tudo o que acontece entre o osso e a nave é conhecido por todos, e naquele corte seco fantástico todas as conquistas e destruições provocadas pela humanidade em milhões de anos vira nada mais do que flash da imponência do tempo sobre a existência. O melhor corte da história do cinema? Sem dúvida, o mais rico em significado, pondo fim à primeira parte do filme, na qual o trabalho de concepção dos primatas é brilhante, assim como a aparição do monolito despertando sua curiosidade e afetando seu comportamento. Não fica tão claro se a mudança de alimentação, de vegetariana para a carnívora, ocorreria mesmo sem a presença do artefato extraterrestre. Quem sabe seja uma isca para o público decidir morder ou não. De qualquer forma, é impossível tirar da cabeça a cena na qual o primata Moon-Watcher descobre como usar o osso para quebrar carcaças, ao som de “Assim Falou Zaratustra”, de Richard Strauss. É forte, simbólica, como se ali fosse mesmo o nascimento no homem de sua própria natureza destrutiva. Fora isso, dentro da estrutura narrativa, serve como preparação para o gancho que levará à primeira virada do filme, justamente no famoso corte.
E então lá está a Terra azulzinha como só seria oficialmente confirmado no dia 20 de julho de 1969, quando a Apollo 11 aterrissou na superfície lunar, no local conhecido como Mar da Tranquilidade, com os astronautas Edwin Aldrin e Neil Armstrong. Em “2001”, Kubrick faz seu pouso na lua para constatar a presença do mesmo monolito apresentado no começo do filme. Só que antes disso temos uma antológica valsa espacial, que à primeira vista confunde-se com um mero exercício de estilo de um gênio exibicionista. Mas o terreno está apenas sendo preparado. Francis Ford Coppola dá o tom de “Apocalipse Now” (1979) justamente nas sequências musicais do início, como “The End”, do The Doors, e “A Cavalgada das Valquírias”, de Wagner. Por essas duas sequências, entende-se que não será um filme qualquer sobre a Guerra do Vietnã. É o que Kubrick faz na viagem rumo à intrigante descoberta numa das crateras lunares: ao som de “Danúbio Azul”, de Johann Strauss, é revelado o ritmo da obra, o total controle da duração dos planos, a cadência entre eles, o uso das lentes. É uma verdadeira valsa de imagens, algumas engenhosamente enquadradas com o objetivo de fazer o espectador acreditar naquilo e se sentir dentro da nave, com truques ópticos tão simples (computador gráfica era ficção na época) que ultrapassam a noção ingênua de genialidade. Mais uma vez, o maestro rege sua orquestra com total segurança, enquanto apresenta invenções que hoje são realidade, graças a uma consultoria que tinha acesso a todas as predições científicas e aos experimentos da NASA.
O perfeccionismo está impregnado em cada frame, inclusive no texto escrito em parceria com o escritor Arthur C. Clarke, considerado por muitos anos um dos grandes autores de ficção científica, ao lado de Robert A. Heinlein e Isaac Asimov. Ao contrário do que se pode pensar, “2001: Uma Odisseia no Espaço” não é baseado no livro homônimo de Clarke, e sim no conto “A Sentinela”, escrito pelo autor em 1948. Na verdade, Kubrick pediu a Clarke que escrevesse um romance com as ideias contidas no conto enquanto desenvolviam juntos o filme, que terminou sendo lançado alguns meses antes do livro chegar às livrarias e se tornar um best seller. Embora a história seja a mesma, existem algumas diferenças entre o filme e o livro, que Clarke exploraria em suas três continuações. Apenas “2010: Odyssey Two” chegou a ser adaptado por Peter Hyams em 1984 (o subtítulo nacional é “O Ano em que Faremos Contato”), com resultado bastante inferior à obra-prima de Stanley Kubrick, no qual os diálogos são relativamente simples e diretos, melhor explorados na terceira parte do filme, quando surgem mais carregados pelas ideias centrais pós-Darwin e as barreiras éticas da inteligência artificial. Entra em cena um dos maiores vilões do cinema norte-americano: o computador HAL 9000.
Nesse ponto da história, tudo se concentra na nave Discovery One e sua missão rumo à Júpiter. A bordo, três astronautas em estado de hibernação, enquanto David Bowman (Kleir Dullea) e Frank Poole (Gary Lockwood) administram a viagem sob a assistência de HAL (voz de Douglas Rain), um computador programado para não cometer erros e interagir com os seres humanos. A história por trás de HAL é interessante, uma vez que muitos supunham ser uma sigla composta pelas letras anteriores às que compõem a sigla da IBM, o que seria uma crítica bem direta e contundente. Os próprios autores negaram o fato, justificando HAL como sendo Heuristical ALgorithm e a própria IBM uma das marcas que apoiaram a produção do filme. Seja como for, é um personagem brilhante, talvez o verdadeiro protagonista de “2001”, representado apenas por um olho vermelho e dono de uma lógica verbal absurdamente pragmática, embora com características humanas, como arrogância e instinto de autopreservação. Após cometer um erro, curiosamente atribuído a uma falha humana, HAL descobre a intenção dos dois astronautas de desligá-lo, surta de vez e começa a matar os tripulantes. É aqui que Kubrick sai um pouco do gênero e flerta com o suspense, criando ótimos momentos de tensão. Clarke achou um tanto absurdo HAL ter a habilidade de ler lábios (ideia de Kubrick) e pode mesmo até ser um dos poucos pecadilhos do roteiro, uma vez não ser tão criativo e engenhoso quanto o resto do filme, apesar de ser bem hitchcockiano o modo como ele filma a cena e hoje em dia de fato existirem computadores com tal capacidade. No final das contas, o maestro compôs certo com notas tortas.
A ideia HAL ter ou não sentimentos humanos, ainda que programados, é uma das discussões que geram controvérsias e permanecem até hoje. Stanley Kubrick não dá respostas, mas só o fato dele mostrar essa relação de modo realista e levantar um questionamento nebuloso e pertinente destaca seu trabalho perante os demais. Fazer o espectador refletir a fundo é um dos grandes méritos de “2001”. A sequência em que Bowman consegue driblar os planos de HAL e ter acesso ao seu “sistema nervoso”, digamos assim, enquanto o computador pede calmamente para que pare e lhe dê outra chance é sensacional, graças, sobretudo, à entonação de Douglas Rain. O som diegético joga o espectador bem no centro da angústia do que está acontecendo. No fundo, é um assassinato, mesmo sendo o único jeito de se livrar de uma ameaça perigosíssima. Nisso, chega-se à cena em que Bowman vai desativando HAL aos poucos e ele vai gradativamente perdendo a consciência. Quantos filmes mostram a morte de um computador de modo tão dramático? Já em seus últimos momentos, HAL pergunta se pode cantar uma música. “Cante para mim, Hal”, a melhor atuação de Kleir Dullea está nessa frase. E aí, o computador começa a cantar “Daisy Bell”, composta por Harry Dacre em 1892, até ficar inconsciente de vez. A curiosidade da música, e por que Kubrick a usou, é que ela foi a primeira reproduzida por um computador, IBM 704, em 1962, tendo este modelo sido o primeiro computador a “cantar”.
Com a “morte” de HAL, Bowman descobre a verdade sobre a missão, e não é nenhuma surpresa ela estar relacionada ao misterioso monolito desenterrado na lua. É aqui que Kubrick leva o espectador além, ultrapassa as fronteiras de seu próprio filme com uma sequência lisérgica que fez muita gente ir ao cinema drogado ou para se drogar e curtir a viagem de David Bowman em direção a um suposto encontro extraterrestre. Mas não espere por seres verdes e cabeçudos típicos das ficções científicas dos anos 50. Kubrick chega à conclusão de que é impossível mostrar a face de Deus e promove um diálogo silencioso entre as etapas da evolução humana: da juventude à velhice e da morte ao nascimento, num movimento absolutamente incrível com as versões mais jovens de Bowman irem sumindo em cortes de contraplano. O “eterno retorno” de Nietzsche cede lugar a uma nova etapa da evolução, e o “star child” é a imagem icônica de um novo passo na evolução darwiniana do ser humano, atingindo uma mente cósmica e holística iniciada pelos primatas. O filme se fecha aberto, jogando as reflexões diretamente para o espectador. A única certeza é que quando surgem os créditos finais, retorna-se lentamente da mais intrigante experiência que o cinema é capaz de proporcionar.
Agradeçamos ao maestro Stanley Kubrick.














