sexta-feira

CANIBAL HOLOCAUST * *

[Idem, ITA, 1980]
Terror
95 min

Filmes são puras experiências estéticas de contemplação e reflexão. Ou são mais do que isso? Bem mais? Quem sabe a representação do belo na tela às vezes seja apenas uma projeção reconfortante de fantasias tolas, enquanto imagens cruas e brutais da desolação do homem por si mesmo, seus desejos, medos, ambições, ultrapasse a ideia de estética, ignore o poder da reflexão, para voltar a quem as assiste como um forte soco no estômago e, sobretudo, no ego. Quando se vê o mal sair do útero da humanidade, isto é, da natureza humana, o choque é tanto que o impulso é virar o rosto para o lado e dizer, numa fala introspectiva: “isso é apenas um filme”. Ninguém quer se olhar no espelho sem maquiagem, seja qual for, e é justamente esta a proposta de “Canibal Holocaust”, polêmica produção dirigida em 1980 pelo italiano Ruggero Deodato: um olhar cru e cruel do nível mais baixo da condição humana.


Ainda que o referido cru esconda um paradoxo, uma vez o mesmo sendo uma maquiagem com o intuito de tornar as imagens realistas o suficiente para incomodar o mais cético dos espectadores. “Canibal Holocaust” acompanha um antropólogo na busca por quatro jovens documentaristas que desapareceram nas selvas amazônicas após contato com duas tribos canibais. Em seu percalço, ele testemunha as mais terríveis atrocidades contra a vida humana e animal (nesse ponto, Deodato deixa a encenação de lado e capta animais de verdade sendo mortos e extirpados), todas culturalmente justificáveis como hábitos tribais. Até então, é cômodo o incômodo do espectador diante de um primitivismo cultural desastrosamente aquém da civilização evoluída dos brancos. Todavia, é na segunda parte do filme, quando o material gravado pelo grupo é descoberto, que Ruggero Deodato revela suas verdadeiras intenções, levando a um viés que torce todas as expectativas e conceitos formados acerca de quem são os algozes do pesadelo imagético a que o espectador é obrigado a presenciar.


E põe pesadelo nisso. As imagens de canibalismo são tão fortes, acentuadas por uma narrativa documental, que o cineasta foi preso e processado logo no lançamento do filme, tendo sido obrigado a convocar todos os atores para mostrá-los vivos e saudáveis. Uma das cenas mais impactantes e bem realizadas, a da garota indígena empalada, precisou ser tecnicamente explicada para convencer o público e as autoridades de que aquilo era fake, coisa de cinema. O realismo grosseiro atingido pela produção, principalmente as mortes de animais reais, fez “Canibal Holocaust” ser proibido em mais de cinquenta países. Desconfia-se da obra ser a recordista nesse quesito. Sergio Leone, grande cineasta italiano, escreveu a Ruggero Deodato elogiando o filme e dizendo que a segunda parte era uma obra-prima do realismo cinematográfico, mas que tudo parecia tão real que ele teria problemas com o mundo todo.


De fato, este não é um filme para pessoas sensíveis. O cinema extrapola suas fronteiras quando o realismo berra nas imagens, deixa de ser uma sessão com pipoca para se configurar numa experiência visceral. Se a analise se voltar para a estética, talvez “Canibal Holocaust” seja uma das primeiras narrativas cinematográficas pós-modernas, precursoras de experiências como “A Bruxa de Blair” e, recentemente, “Atividade Paranormal”. A linha que separa a fantasia da realidade é tênue e o realismo apresentado é hiper, supera o real. Contudo, o que mais incomoda aqui, o que mais choca, é a violência das ideias humanas no seu movimento de conduzir toda e qualquer coisa a um sensacionalismo pedante, do desejo pela fama levar os atos a extremos irreparáveis, da morte com violência física e moral ter garantia de público e, com isso, rentabilidade. Amparado por lógicas mesquinhas, o homem promove a crueldade a si mesmo e, sem perceber, libera de suas próprias profundezas o verdadeiro canibal.


GORE: UM POUCO DE SANGUE NÃO FAZ MAL


Quando o italiano Ruggero Deodato causou controvérsias em todo o mundo com o lançamento de “Canibal Holocaust”, o Gore, subgênero do Terror cuja obsessão dos realizadores é chocar com uma violência gráfica e realista, já se tratava de um estilo de filme firmado e com regras bem específicas na Itália: pessoas perdidas numa floresta, mulheres nuas, imagens com um viés documental da selva e mortes reais de animais em frente à câmera. O tema do canibalismo se tornou bastante popular no cinema italiano na década de 70 e 80, sendo na verdade a evolução desse subgênero considerado maldito por muitos, embora tenha uma grande quantidade de apreciadores, que surgiu no ramo cinematográfico na década de 1960.


Muito antes da carnificina levada ao extremo pelos canibais italianos, filmes violentos sempre tiveram seu espaço na história do cinema. Contudo, foi uma produção japonesa intitulada “Jigoku” (ou “Hell”) que tornou a violência tão explícita a ponto de incentivar um novo filão para o gênero. Entretanto, consideram-se os “pais do Gore” os estadunidenses H. G. Lewis e David F. Friedman, que começaram com filmes de exploitation, os populares “Nudie-Cuties”. Os filmes exploitation eram realizações de baixíssimo custo, sem qualquer preocupação técnica ou artística, versando sempre sobre temas sensacionalistas e de lucro fácil. Logo, eles descobriram que a fórmula de misturar nudez e sexo nesses filmes violentos dava mais do que certo – e foi assim que realizaram “Banquete de Sangue” (“Blood Feast”, 63), considerado pela maioria o primeiro gore propriamente dito.


Também conhecido como “slasher movie”, o sucesso de “Banquete de Sangue” provocou uma onda de filmes de violência explícita e cada vez mais chocantes, em que os realizadores queriam sempre superar os filmes já feitos com cenas que incomodassem e confundissem o público acerca do que era ou não real, e a maquiagem concebida por verdadeiros mestres da época tornava essa linha incrivelmente tênue. Quando o subgênero parecia estar entrando em desgaste, com várias imitações baratas e sem criatividade, cineastas talentosos viram a oportunidade de usar o gore para passar uma mensagem social. Surgiam aí os filmes de zumbis comedores de carne humana, saídos da cabeça de um gênio chamado George A. Romero.


Com parcos recursos e muita boa vontade dos amigos, ele realizou em 1968 o clássico absoluto “A Noite dos Mortos-Vivos”, em preto-e-branco e contido no gore, mas com alto teor social e crítica ao racismo. O filme gerou milhares de continuações e até hoje é referência, assim como sua continuação de 78, “O Despertar dos Mortos”, sagaz crítica ao consumismo descontrolado. Pegando carona, surge o “spaghetti zombie”, filmes de zumbis feitos na Itália com obras consagradas pelo mestre Lucio Fulci, como uma espécie de sequência para “Despertar dos Mortos”, que fizera grande sucesso por lá. Fulci foi além de uma mera continuação e fez de “Zumbi 2 – A Volta dos Mortos” uma produção de extrema violência gráfica, dando início ao ciclo de zumbis italianos. A Espanha também flertou com o tema, destacando-se as obras de Jorge Grau e, sobretudo, Amando de Ossorio, com sua tetralogia sobre os mortos-cegos. Nos Estados Unidos, os zumbis se transformaram em demônios com muito gore e humor negro nas mãos do diretor Sam Raimi e do ator Bruce Campbell. “A Morte do Demônio” (“The Evil Dead”, 82), é outra produção de baixíssimo custo que virou cult, rendeu duas continuações e deu um novo gás para um subgênero que, mais uma vez, parecia estar com os dias contados.


E foi aí que a renovação do gore apareceu nas produções italianas. Mais terrível do que mortos comendo vivos é assistir de camarote a vivos se alimentando de outros vivos. Assim, o canibalismo levou o subgênero ao extremo de tudo o já visto até então. Quem deu o ponta-pé inicial foi Umberto Lenzi com “Il Paese del Sesso Selvaggio” em 1974. Contudo, nenhum outro realizador se fez mais notar do que Ruggero Deodato. Tido como mestre dos filmes de canibais, ele chocou o público logo em seu primeiro filme sobre o tema, “Mundo Canibal”, de 77, considerado por muitos um dos melhores filmes de canibais já feitos. Um ano depois, Sergio Martino mostrou ao mundo “A Montanha dos Canibais”, o qual já exagerava nas mortes gráficas e nos animais sendo mortos de verdade. Após Deodato, a Itália viu o “giallo”, que teve como expoente outro grande cineasta, Dario Argento, ascender e ir gradativamente perdendo força. Não se pode esquecer da polêmica em torno dos “snuff movies”, nos quais supostamente as pessoas eram mesmo assassinadas frente à lente das câmeras. Hoje, o gore sobrevive com os “torture porns”, representado pela série “Jogos Mortais” e suas derivações. Qual sejam as tendências daqui por diante reservadas por um cinema que versa sobre o choque nauseante do homem em seu processo mais visceral de autodestruição, é impossível tirar da cabeça a imagem concebida por Ruggero Deodato da me
nina índia empalada em “Canibal Holocaust”. Se existe alguma poesia no horror escatológico, ela se encontra ali, nos versos mais tortos que alguém já teve coragem de escrever.


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