quarta-feira

O ECLIPSE * * * *

[L'Eclisse, ITA, 1962]
Drama
126 min

O cinema de Michelangelo Antonioni atingiu seu ápice sartriano nos anos 60, época na qual o intimismo de suas obras revelava todo o pessimismo diante dos relacionamentos. Algo claro e evidente em cada plano, diálogo e, sobretudo, silêncio deste “O Eclipse”, último filme da chamada Trilogia da Incomunicabilidade. Assim como em “A Aventura” e “A Noite”, seus predecessores, o espectador é convidado a ver de camarote o que o crítico Luis Carlos Merten classificou como a crise do casal burguês, e é impressionante constatar como Antonioni, há 50 anos, já lançava seu comentário sobre a pós-modernidade que estaria por vir.

Aqui, o verso narrativo é sobre o medo da entrega a outro relacionamento. Os primeiros minutos traduzem a angústia claustrofóbica do fim da relação, usando brilhantemente o espaço cenográfico com esse propósito. Não só esse, como também outros elementos, como o eixo quebrado e os tempos mortos, fazendo do silêncio o verdadeiro protagonista do filme. No decorrer da narrativa, percebe-se a genial utilização dos diálogos não para expor, e sim para esconder quem são os personagens. Estes são revelados pelo diretor por seus momentos de solidão, gestos, reações e até mesmo pelo próprio enquadramento da câmera.

Essa, por sua vez, está sempre valorizando a arquitetura do ambiente como se quisesse dar dicas das origens da doença de Eros. Está-se cada vez mais prendendo o indivíduo dentro de si mesmo, tanto que as relações terminam se tornando prisões ao invés de fortalezas, uma vez que as pessoas confundem de onde vem o impulso de querer se libertar. O resultado disso é que estar só é confortável e o silêncio a melhor das conversas. Esse eclipse humano é bem estudado por Antonioni, ainda que, compreensivelmente, apenas reforce sua falta de otimismo acerca do futuro das relações.

O final que o diga.


1 de março de 2010


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