[American Beauty, EUA, 1999]
Drama
121 min
O grande vencedor do Globo de Ouro e do Oscar de Melhor Filme de 2000 justifica toda a “badalação” em cima dele assim que o vemos. “Beleza Americana” é um filme que mexe com a gente em todos os sentidos. Com um roteiro tão bom e corrosivo nas mãos (escrito por Alan Ball, o nome por trás da excelente série “Six Feet Under”), qualquer diretor renomado tremeria nas bases com medo de fazer feio, mas Sam Mendes, já consagrado nos palcos ingleses e que aqui estreia como diretor, surpreende qualquer um que entenda ou não dessa função na realização de um filme. Sua visão, perfeitamente posicionada e articulada, parece estar muito acima das emoções de uma cena. A impressão que temos é de um autocontrole fora do comum. É tanto que uma simples discussão de família – com pratos sendo lançados contra a parede – é capaz de nos fazer explodir, mas a câmera não se agita, não há cortes rápidos, não sai do seu magnífico controle.
Nessas condições, qualquer ator teria realmente que se garantir por si só para convencer o público do seu talento, exatamente como numa peça de teatro. Agora entra em cena o nosso terceiro astro: Kevin Spacey. Quem consegue esquecer o frio serial killer de “Seven” ou de sua brilhante performance em “Os Suspeitos”? É, esse é o cara ideal para “vestir a roupa” de Lester Burnham, um pacato sujeito cuja melhor parte do seu dia é se masturbar no banheiro. Com uma vida tão suburbana e comum, submisso à mulher, uma vendedora de imóveis, e com todos os sonhos desfeitos, é de se esperar que Lester morra de desgosto de uma hora para outra.
Justamente é essa a impressão que se tem quando, logo no início, o triste personagem se apresenta, comenta um pouco sobre sua vida e diz que em menos de um ano estará morto. Talvez ele já esteja morto, só que ele ainda não sabe disso. É quando Lester se apaixona pela amiga da filha Jane e acorda do “coma” em que vivia que resolve dar um basta a toda essa situação: ele larga o emprego, compra o carro dos seus sonhos, passa a malhar e a fumar maconha na garagem. Radical? Pode até ser. Mas ao mesmo tempo em que essa transformação acontece, a mulher (Annette Bening, um tanto exagerada) resolve relaxar arrumando um amante e a filha se descobre objeto de desejo de Rick Fitts, filho de um militar linha-dura enrustido e obcecado em filmar a “beleza do mundo”.
Sem dúvida alguma, “Beleza Americana” é estranhamente original e perturbador. Um retrato perfeito da destruição moral, não só do american way of life, como da sociedade como um todo. Por essas e outras razões, o filme é um programa obrigatório para quem acha que sua vida não é o que você queria. Mas cuidado com as consequências de se acordar do “coma”. Um final que consegue ser impactante e poético ao mesmo tempo nos faz pensar que nada daquilo era para ter acontecido. A vida não é tão justa quando acordamos do verdadeiro “coma” apenas quando percebemos o quanto os valores foram dilacerados e só restaram os miolos.
Vemos, então, o quanto essa verdade se faz presente em nossa vida e em cada um dos complexos personagens que ficaram marcados para sempre. Por que, se na hora da sua morte, no último segundo, você ver toda a sua vida passar diante dos seus olhos, e esse último segundo se repetir como se ele fosse um oceano de tempo, você se dará conta de que terá a eternidade para se arrepender e lamentar a gratidão que nunca terá. Mesmo que você não saiba do que eu estou falando, não se preocupe. Um dia você saberá.
Teresina, 2000
Jornal “O Dia” – 15 de junho de 2004

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