Drama
110 min
“NUNCA houve uma mulher como Gilda”, bradavam os cartazes do filme “Gilda” à época de seu lançamento, no dia 15 de março de 1946 (houve uma premiére em 14 de fevereiro do mesmo ano). De fato, Rita Hayworth brilha em um de seus personagens mais famosos, senão o mais famoso, uma mulher que foge da obscuridade com a qual poderia ter sido escrita sem se tornar rasa como um pires branco de porcelana barata. Gilda é aquele tipo de mulher que parece mais saída de um sonho: tem personalidade forte, embora às vezes derrape nela, é esperta, dança e canta como ninguém. Rita é sinônimo de Gilda, em um dos clássicos mais populares do cinema.
O filme de Charles Vidor se passa na Bueno Aires do final da Segunda Guerra Mundial. Começa com Johnny Farrell, um andarilho norte-americano que forja sua própria sorte, sendo salvo por Ballin Mundson, um sujeito tridimensional dono de um cassino ilegal. Os dois tornam-se amigos e Farrel acaba virando o braço direito de Ballin. Ao término da Guerra, este faz uma viagem inesperada e retorna meses depois casado com Gilda, que no passado tivera um forte romance com nada mais nada menos que Johnny Farrell.
Os personagens são muito bem desenvolvidos em “Gilda”. Glenn Ford interpreta um Johnny que quer de qualquer maneira manter o oportunismo de sua vida, ocultando os pecados cometidos pela protagonista. Ballin Mundson, interpretado por George Macready, é aquele sujeito sem sentimento, que se satisfaz em comprar as pessoas e ter poder sobre elas. Rita Hayworth é beleza e talento em doses cavalares. Ao mesmo tempo em que ela enche a tela — e nossos olhos — de um encanto raro, a atriz atua esplendidamente, além de cantar e dançar. “Put the Blame on Mane” é uma música alegre e inesquecível. Mesmo não se igualando a Marilyn Monroe em “Quanto Mais Quente Melhor”, no qual ela canta “I Wanna Be Loved By You”, principalmente pelo fato de nesta cena em particular ela ter sido dublada por Anita Ellis (desculpe se acabei a ilusão de algum fã), Rita se destaca e proporciona momentos memoráveis. Outra curiosidade é que numa cena em que a protagonista esbofeteia Johnny em ambos os lados da face dele, Rita foi tão intensa que terminou quebrando de verdade dois dentes de Glenn Ford, que permaneceu no seu lugar até o final do take. Isso é que é atuar!
Em vários trechos, “Gilda” se assemelha muito com “Casablanca”, feito quatro anos antes, graças à direção certeira de Charles Vidor e ao roteiro superestimado de Marion Parsonnet, baseado na estória de E. A. Ellington, por sua vez adaptada por Jo Eisinger (e ainda há a colaboração não-creditada do genial Ben Hetch), que cria um triângulo amoroso diferente e interessante, que infelizmente desliza um pouco na elaboração do desfecho. Mas isso são apenas detalhes e todos esquecíveis por conta da excelente fotografia em preto-e-branco de Rudolph Maté, que acentua ainda mais o encanto da estória, e da maravilhosa performance de Rita Hayworth. “Gilda” é um filme inesquecível e imperdível para os verdadeiros amantes do cinema. O DVD traz um documentário básico sobre a trajetória de Rita em Hollywood, além do trailer do filme.
THE, 10.01.02
Jornal “O Dia” – 24 de agosto de 2004

Nenhum comentário:
Postar um comentário