domingo

DE OLHOS BEM FECHADOS * * * *


[Eyes Wide Shut, EUA, 1999]
Drama
159 min

Stanley Kubrick era realmente um gênio. Arrastou as filmagens de “De Olhos Bem Fechados” por mais de dois anos, repetiu cenas à exaustão até o cúmulo da perfeição e não se cansava de criar em cima da hora, talvez prevendo que morreria uma semana depois de entregar o filme.

Tom Cruise e Nicole Kidman são Bill e Alice Harford, um casal aparentemente comum que gostam de flertar com outras pessoas em luxuosas festas. Até aí tudo bem. Porém, quando Alice confessa ao marido que teve fantasias sexuais com um oficial da marinha que vira no último verão – e que largaria tudo se o tal oficial a quisesse –, o mundo de Bill desmorona completamente.

Perturbado com a imagem da mulher transando com outro, ele sai pela noite tentando confortar sua dor de corno, e talvez encontrar um sentido para a vida (que, claro, não existe). Em sua busca por uma vingança redentora, consegue a senha para uma estranha festa de mascarados: depois de um ritual bem sinistro, em que um pianista, amigo de Bill, toca de olhos vendados, tem-se início uma orgia sexual sem limite estabelecido. Esse é o ápice de todo o filme, onde o personagem é constantemente avisado que sua vida corre perigo.

Não espere que depois disso a história vire um suspense de prender o fôlego. Bill fica obcecado com o que viu, uma mulher aparece morta e só. Kubrick nunca escorregaria a tal ponto de tornar sua descida ao inferno sexual dos casais em um thriller previsível. E é nesse ponto que “De Olhos Bem Fechados” se evidencia dos demais filmes do gênero e adquire a marca do diretor de “Laranja Mecânica” (o avesso deste). O perfeccionismo de Kubrick está presente em cada cena, o que faz o filme ser esteticamente perfeito, além de sua direção chocante que não poupa ninguém.

Tom e Nicole estão em seus melhores papéis, mesmo que seus personagens não passem de marionetes em uma trama simples e densa. Buscar sentido para o filme é o mesmo que cutucar a própria cicatriz e vê o que os olhos não veem. É interessante notar que enquanto o marido tenta trair, sem muito êxito, numa realidade surreal, a mulher o trai em fantasias eróticas. Ser passivo diante disso é quase impossível, e Kubrick quis mostrar esse conflito de sexualidade reprimida de uma maneira quase exagerada, mas justificada pela época em que estamos vivendo, onde o sexo é fácil e se encontra em todas as esquinas.

Para quem está acostumado com os enlatados cinematográficos do dia a dia, a rejeição à última obra de Kubrick é quase que garantida, simplesmente porque não há respostas concretas. O título justifica a obra.

Teresina, 1999

Um comentário:

Laércio Barbosa disse...

seu blog é ótimo.
vou acompanhar =D